Imagem: Marcos Gorgati

1.7.09

ANTES DA CHUVA

O sapo descansou no colo da morta. A língua capturou um inseto. Chovia. A água ia limpando o rosto inchado da moça, os vermes iam descobrindo os seus orifícios. Os urubus dançavam no céu ao som das trovoadas.
A enxurrada carregou o corpo para dentro do rio. As piranhas jantaram, os jacarés preferiram a capivara. Uma pedra deteve o cadáver. Somaram-se folhas, gravetos e garrafas de plástico sobre a sua pele muda. Ganhou peso. No fundo do rio bateu a cabeça. O menino pescou o esqueleto.

29.1.09

A CARTA

Da leitoa restou a cabeça em cima da mesa, os palitos espetados nas batatas. As janelas fechadas, a cadeira desfeita. Na televisão um jogo de futebol. O retrato da mãe sobre o sofá de chita está mofando. De uma porta entreaberta, a mínima luz que vem da cozinha. O copo de vidro derrama champagne barato no chão de madeira. Ao lado da estante com gérberas, rosas e crisântemos, um rato morto. Da boca da noiva escapa uma sílaba. Os braços para o alto, os joelhos dobrados. O crucifixo na parede está torto. O relógio tem o ponteiro menor no número três e o maior no cinco. Não se sabe se é dia ou noite. No reflexo do espelho, os olhos e o nariz de um convidado. A imagem de São Jorge no oratório está sem a espada. Uma galinha degolada no tapete de fuxico. A menina chora abraçada à mamadeira, um vira-lata lambe as suas mãos. O olhar do porco parece estar à procura da companheira.
A gravata amarrada no lustre sustenta o corpo do noivo. Abaixo dos seus pés descalços, uma carta. Ilegível.

O FUNCIONÁRIO

Os pequenos eram dóceis e com pouca delicadeza no trato, e gostavam de cheirá-lo às quintas-feiras, quando ele vinha para fazer as leituras no elevador. Exalava Jean Paul Gaultier. Entrava sempre com um livro nas mãos e, geralmente, os garotos pouco se interessavam por aquele objeto cheio de riscos e sinais impenetráveis. Mas se sentiam melhores, mesmo sem saber por que, agarrados às pernas do moço, ao seu corpo tão bem cuidado e as roupas com amaciante. O seu jeito de explicar as coisas, organizando as palavras de maneira distinta, encantava. Mas naquela quinta-feira à tarde, somente ele apareceu.
Angustiado pela ausência dos companheirinhos, cheirou a si mesmo, fuçou o seu corpo até se descobrir um outro que não ele, se debateu naquele minúsculo quadrado, cheio de lembranças, odores, braços e histórias. Apertava os botões como um ascensorista enlouquecido, na expectativa de que a porta quando abrisse lhe entregasse um menino. Mesmo sem a sua platéia habitual, abriu o livro e leu até a página sete. Não prosseguiu com a leitura. Ele nunca conseguia ir além da página sete, com nenhuma história e nenhum livro. De tanto subir e descer, abrir e fechar. Cansou. Dormiu. No sonho ficava esquecido e sem voz para pedir socorro, no fundo de um poço. Acordou inseguro daquele sonho, sem saber onde colocar as mãos, sem firmeza nos pés, ajeitando os cabelos de modo nervoso olhando para o espelho. Lembrou-se de quando era garoto e apanhava com chinelos cor-de-rosa. A mãe deixava-o sem as calças e amaldiçoava o marido enquanto aplicava a surra. Sempre que acordava inseguro tinha essa lembrança.
Mas os seus minúsculos companheiros não o haviam deixado só. Quando chegaram, estavam desfigurados, tinham a pele rasgada, derramavam sangue e arfavam como se tivessem sobrevivido a uma perseguição de um grupo de cães. Ele não pôde evitar que um deles lhe desse um abraço e tingisse de vermelho a sua calça bege com pregas. Olhavam-no como se pedissem um pouco da sua paciência (que ele sempre demonstrava ter com eles), do seu cheiro de coisa nova, do seu universo tão pouco real. Chamou os garotos e pediu que entrassem no elevador, segurou as portas, certificou-se de que todos tinham chegado. Saiu e apertou o botão do último andar. Ficou observando pelo visor, no térreo, os números crescentes até o vigésimo nono. Ele sabia o que os aguardava e o que aconteceria depois. Sabia que os perderia para sempre. Do vigésimo nono ninguém nunca voltou. Mas ele, apenas um funcionário, um mero serviçal, o que poderia fazer? Eles, do vigésimo nono, o matariam se dissesse ou fizesse um mínimo gesto de indignação. Gostava daqueles pequenos. Pelo menos não sofreriam tanto, o pior já havia passado. E se não fosse assim, o que seria dos outros, do mundo? Iriam morrer de fome? Comer carne dura? Assim é que eram as coisas. As histórias amaciavam os músculos dos pequenos. Olhou em direção à porta do edifício e novas crianças chegavam. Ajeitou-se, penteou o cabelo com os dedos e abriu o livro, pronto para cumprir a sua função.

21.8.08

Um Nome

Abriu os olhos. Tudo estava escuro, esticou os braços e acendeu a luz. Fazia calor e o corpo de Lucas vertia água. Foi até a pia, abaixou a cabeça e girou a torneira com força, a água lavava da mente o pesadelo. Sonhara com um amor, um verdadeiro amor. “Foi só um pesadelo, só um pesadelo”, repetia tentando se convencer de que o amor verdadeiro não existia.
Não conseguira dormir, o calor e o medo de sonhar novamente o impediram. Lucas apanhou duas almofadas e encostou-as a parede, puxou um livro da estante, era A Metamorfose de Kafka. Passou a madrugada submerso no infortúnio de Gregor Samsa. Involuntariamente um nome lhe vinha à cabeça: Cristina. Entre as suas antigas namoradas não havia nenhuma cujo nome fosse Cristina. Também não conhecera nas últimas semanas nenhuma mulher que carregasse a letra C no primeiro nome.
Assim que o despertador tocou, um raio de sol cruzou a fresta da janela. Eram seis e meia da manhã, Lucas abriu a torneira do chuveiro e a água precipitou veloz e barulhenta. Mergulhou o corpo nu na água fria e deixou que quase congelasse. Secou o corpo numa toalha branca que ganhara da avó materna e pela primeira vez pôde perceber a consoante bordada:C.
Não sentou a mesa para beber o café, apenas pegou um pão e, como um cachorro, carregou-o pela boca e foi para o colégio. Atrasado, entrou correndo na sala com os cabelos molhados e arfando. Os seus alunos lhe deram bom dia e no quadro negro um gigantesco C o atormentou. Lucas pensou que aquele talvez não fosse o seu melhor dia; ficara toda manhã ouvindo uma voz lhe ditar um nome que ele não ousara repetir em voz alta. Alegando sofrer cefaléias múltiplas pediu ao diretor que o dispensasse.
Pensou tomar um porre, mas não sucumbiu à tentação da cachaça. Subiu no lotação e com os olhos fixos em seus olhos, o cobrador lhe disse: - Cristina. Pensou ter confundido a voz do cobrador com a voz dentro de si a lhe ditar o nome Cristina. Sentou-se num dos bancos e o passageiro ao lado, como se lhe dissesse boa tarde, disse-lhe: - Cristina. Todos a sussurrar as suas monótonas melodias diziam Cristina. Cristina. C r i s t i n a. Traziam apenas este nome em seus lábios. Lucas desesperou-se e rapidamente desceu do lotação como quem escapa de uma emboscada, respirou tranqüilo, os olhos fixos no céu; as nuvens desenhavam C, o outdoor eletrônico escrevia: Cristina.
Enfim em sua casa, deu leite para o gato que miava desesperado, ligou o som e pôs-se a ouvir a Ária na quarta corda de Bach. Foi ao banheiro, girou a torneira da pia e lavou o rosto com sabonete, deixou que a água escorresse sobre a sua nuca como mãos femininas a lhe fazer carícias. Pegou uma toalha seca no armário e enxugou o rosto úmido, olhou-se no espelho e sentiu o cheiro de um perfume doce que subia do seu próprio corpo, penteou-se com calma e malícia, e enquanto marcava os olhos com delineador, ouviu uma voz: - Cristina.
*Conto publicado originalmente na Revista Etcetera, N. 19, - Março/Abril de 2006.