Os pequenos eram dóceis e com pouca delicadeza no trato, e gostavam de cheirá-lo às quintas-feiras, quando ele vinha para fazer as leituras no elevador. Exalava Jean Paul Gaultier. Entrava sempre com um livro nas mãos e, geralmente, os garotos pouco se interessavam por aquele objeto cheio de riscos e sinais impenetráveis. Mas se sentiam melhores, mesmo sem saber por que, agarrados às pernas do moço, ao seu corpo tão bem cuidado e as roupas com amaciante. O seu jeito de explicar as coisas, organizando as palavras de maneira distinta, encantava. Mas naquela quinta-feira à tarde, somente ele apareceu.
Angustiado pela ausência dos companheirinhos, cheirou a si mesmo, fuçou o seu corpo até se descobrir um outro que não ele, se debateu naquele minúsculo quadrado, cheio de lembranças, odores, braços e histórias. Apertava os botões como um ascensorista enlouquecido, na expectativa de que a porta quando abrisse lhe entregasse um menino. Mesmo sem a sua platéia habitual, abriu o livro e leu até a página sete. Não prosseguiu com a leitura. Ele nunca conseguia ir além da página sete, com nenhuma história e nenhum livro. De tanto subir e descer, abrir e fechar. Cansou. Dormiu. No sonho ficava esquecido e sem voz para pedir socorro, no fundo de um poço. Acordou inseguro daquele sonho, sem saber onde colocar as mãos, sem firmeza nos pés, ajeitando os cabelos de modo nervoso olhando para o espelho. Lembrou-se de quando era garoto e apanhava com chinelos cor-de-rosa. A mãe deixava-o sem as calças e amaldiçoava o marido enquanto aplicava a surra. Sempre que acordava inseguro tinha essa lembrança.
Mas os seus minúsculos companheiros não o haviam deixado só. Quando chegaram, estavam desfigurados, tinham a pele rasgada, derramavam sangue e arfavam como se tivessem sobrevivido a uma perseguição de um grupo de cães. Ele não pôde evitar que um deles lhe desse um abraço e tingisse de vermelho a sua calça bege com pregas. Olhavam-no como se pedissem um pouco da sua paciência (que ele sempre demonstrava ter com eles), do seu cheiro de coisa nova, do seu universo tão pouco real. Chamou os garotos e pediu que entrassem no elevador, segurou as portas, certificou-se de que todos tinham chegado. Saiu e apertou o botão do último andar. Ficou observando pelo visor, no térreo, os números crescentes até o vigésimo nono. Ele sabia o que os aguardava e o que aconteceria depois. Sabia que os perderia para sempre. Do vigésimo nono ninguém nunca voltou. Mas ele, apenas um funcionário, um mero serviçal, o que poderia fazer? Eles, do vigésimo nono, o matariam se dissesse ou fizesse um mínimo gesto de indignação. Gostava daqueles pequenos. Pelo menos não sofreriam tanto, o pior já havia passado. E se não fosse assim, o que seria dos outros, do mundo? Iriam morrer de fome? Comer carne dura? Assim é que eram as coisas. As histórias amaciavam os músculos dos pequenos. Olhou em direção à porta do edifício e novas crianças chegavam. Ajeitou-se, penteou o cabelo com os dedos e abriu o livro, pronto para cumprir a sua função.