marcelo maluf

24.7.11

Da influência: construção do edifício genético ou o quê?


Mais um nome para a minha coleção de heranças genéticas: Prolapso da válvula mitral ou Síndrome de Barlow. Já tenho na lista: colesterol e fungos nas unhas dos pés. O que significa que eu já nasci assim, com todos esses atributos. Assim como nasci com esse nome, essa boca, esses olhos, essas orelhas, essas mãos e esse nariz. Minha salvação. O nariz eu pude modificá-lo com uma cirurgia plástica. Era muito grande para a minha cabeça pequena. O que talvez seja um bom sinal, não a cabeça pequena, mas a possibilidade de mudança. Nada no mundo é maldição hereditária.

Eu tenho uma deformidade leve no coração que pode romper deixando com que o sangue o inunde e aí será o fim. Mas é raro. Talvez seja necessário romper o ciclo genético, não sei como isso pode ser possível. Talvez não seja necessário romper, mas seguir sabendo. Meu pai, meus tios, meu avô, todos com sangue grosso nas veias. Por isso, preciso evitar comer tudo que provem dos animais, principalmente os terrestres: leite, queijo, carne vermelha, ovo. Uma lista infinda. Quando se vê, quase não sobra nada. Já me perguntei diversas vezes, por que existem quindins? Eles não deveriam ser proibidos? E quem fosse pego comendo um deveria ser preso, no mínimo multado, e prestar serviços a comunidade, acusado de ser cúmplice do LDL. Agora me diz como é que se faz para manter uma alimentação saudável com tanta porcaria irresistível por aí?

Azeite de oliva extra virgem. Abacate. Castanha do Pará. O salmão é rico em ômega 3, granola, aveia, fibras. Vinte miligramas de sinvastatina por dia, minhas orações a São Francisco de Assis, Maomé, Buda e Jesus Cristo. Minha comunhão com os entes da floresta. Não meço esforços para salvar de um colapso as minhas artérias. Chocolate? Proibido. Recomendado é beber muita água, fazer exercícios físicos, não ficar estressado. Por isso ouço Bach, tenho todos os discos dos Beatles, uma compilação de music for meditation. Adoro ler contos de fadas antes de dormir e bebo um cálice de vinho tinto seco por dia para afinar o sangue. Mantras budistas e cantos gregorianos também me acalmam. Mas o meu verdadeiro dilema é a dispersão e a falta de disciplina. Não consigo manter regularidade por mais de três dias. Esqueço e como carne, queijo, ovo frito, não faço exercícios físicos, ouço Sex Pistols, leio Kafka, esqueço dos remédios, vou meditar ouvindo Nirvana, esqueço de comer as castanhas do Pará. Simplesmente esqueço. Não se trata de ato falho. Não sou um suicida moderato. Se tivesse que me matar seria de uma só vez. Um mergulho no vazio. Mas definitivamente essa possibilidade não está dentro dos meus planos. Não faz parte da minha herança genética.

Talvez minha memória seja genética. Minha falta de disciplina e o meu corpo inteiro; genéticos. Os meus cabelos caindo, genéticos, as minhas dúvidas, as minhas escolhas, os meus óculos, os meus sapatos. Todos genéticos. Será que o fato de eu gostar do Nat King Cole é porque o meu pai também gostava? Mas o James Brown, fui eu quem apresentou a ele. Talvez eu continue gostando de ouvir James Brown, porque meu pai também gostava. Minha estética é genética?

Talvez tudo o que sou e vivi e li, também faça parte, hoje, da minha estrutura genética. O que em tese me faria não saber identificar aquilo que recebi daquilo que supostamente nasceu comigo. Talvez seja assim, o edifício genético é uma obra em constante construção. Work in progress. Minha mudança em busca do meu enigma de ser: genética do universo.

7 comentários:

donadajanela disse...

Caracoles... Se pensarmos de acordo com okardecismo, escolhemos cada um dos nossos "detalhes"!, cada uma das restrições que teríamos e do caminho que seriamos fadados a trilhar. Bom, não podemos reclamar, não é?! E eu não posso com chá verde... sou do tipo Vata... E o pior é que descobri justamente agora que estava tentando me acostumar com ele...

Abraços da Bia Bernardi

Plínio Camillo disse...

Talvez seja ....
Talve ....

Stella Ramos disse...

Querido,

Escrevi um texto enorme pensando sobre o seu, mas alguma coisa aconteceu e a página recarregou, levando tudo...

Vou tentar reunir as idéias de novo e te mando por email.

(antecipando: adorei o texto)

Ainda quero o almoço. Sem ovo, leite, nada de origem animal e nem muito sal, rs. Compensamos a sem gracice com bom papo!

Beijo!

Laura Fuentes disse...

É a primeira vez que te visito neste novo formato, e estou adorando você mais confessional, visceral, atrapalhado e sincero. O lançamento deste teu novo blogue merece comemoração: com uma bela taça de vinho que faz bem e não engorda...rsr
beijão

Marcelo Maluf disse...

Laura, querida!
Expor-se é revelar-se. Atrapalhar-se é desarticular a ordem para reinventar-se do caos. Gracias!!!

Carol Caetano disse...

desta vez, passeando nas heranças genéticas do amigo, percebo que algumas das minhas são imutáveis. e, de repente, a maturidade seja aprender a escondê-las e não as revelar ao grande público. - disse o meu colesterol, que morre de vergonha de existir.

Marcelo Maluf disse...

Queridíssima Carol, eu tenho um herói dentro de mim: o HDL. Bj

Imagem do cabeçalho: desenho tipográfico de Bruna Therolly

Imagem de fundo: gravura em metal - Marcelo Maluf